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Roy Andersson é um filósofo. Atributo característico e incontestável quando você termina de assistir Um Pombo Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência. O filme que, desperta estranheza e curiosidade pelo título absurdo, na verdade, fala sobre o absurdo que é o viver e na forma peculiar na qual enxergamos os fatos cotidianos e, muitas vezes, ordinários da vida.

Dois homens, num claro simulacro existencial sobre Dom Quixote e Sancho Pança, indivíduos bastardos e sonhadores coitados, espectadores de si e do mundo que os cerca. Através de uma perspectiva comum – a câmera situada como um quadro numa profundidade estética poética e dura denotam magistralmente e amargamente os nuances teatrais da película. Estes, por mais que soem completamente desconexos, acabam sendo postos à prova com sublimidade e reflexões tangentes.

As dores evocadas por Andersson, pausadamente intercaladas com pitadas de um humor negro sucinto, dão um tom perturbador e ao mesmo tempo anestésico das pequenas fábulas reais apresentadas. Enquadramentos existenciais inimagináveis se vistos apenas narrativamente falando, mas que se trazidos para os inúmeros viveres já alcançados pelo estigma do ser humano, mostram não apenas a aspereza daquilo que significa ser humano, como também rebate o olhar retraído que fazemos da humanidade.

É um filme cru, engraçado, visionário, atemporal, petulante e triste. Preso nos preenchimentos contemporâneos, mas sem os pés fixos nas camadas mais superficiais existentes em boa parte do cinema tradicional. Não é um filme de fácil digestão. Dá muito pano pra manga. Faz-se necessário queimar alguns neurônios outrora letárgicos para adentrar no fantástico universo de Andersson, que iniciou esta saga sobre a humanidade e os seus devaneios com Canções do Segundo Andar (2000) e Você, Os Vivos (2007).

Um Pombo que Pousou num Galho Refletindo Sobre a Existência é um elixir cinematográfico. Não cabe de receitas, mas pode facilmente, se não consumido com cautela, causar sérios e irreversíveis danos à mente. Você pode sorrir e chorar ao mesmo tempo e ainda ficar feliz que esteja tudo bem.

Fonte: Obvious