Hoje cedo, Socorro me perguntou como se faz para ter um cartão TAM Fidelidade. Ela conta que acumulou muitos pontos no seu cartão de crédito e que talvez queira usá-los para fazer uma viagem – “pode até ser para Curitiba”, disse – e que, para isso, precisa se inscrever no programa da maior companhia aérea do Brasil. Ela procurou informações numa agência de turismo que abriu no seu bairro, a Piraporinha, na zona sul da capital paulista, e que a instrução foi que ela procurasse uma loja TAM ou fizesse seu cadastro pela internet. Na verdade, Socorro já sabia tudo sobre o programa – as vantagens ao acumular milhas, o resgate dos pontos, a associação da empresa aérea com outras marcas etc – e estava sutilmente apenas pedindo que eu fizesse o cadastro para ela.

Socorro é mais um rosto visível das transformações do Brasil na última década. Migrante do nordeste a São Paulo na grande leva da industrialização após os anos 1950, trabalha como doméstica há pelo menos três décadas. Criou sozinha os três filhos, sob o manto do sofrimento a que os trabalhadores no Brasil são historicamente submetidos, mas orgulha-se da dignidade de ter conquistado uma vida melhor por meio do trabalho e das mudanças socioeconômicas do País. Mas a TAM, a quem esse target tornou-se valioso nos últimos anos, o ignora no seu programa de fidelidade: não há a opção doméstica entre as atividades profissionais do cadastro.

A ausência se torna imperdoável quando passeamos pela lista das profissões no formulário: há antropólogos, jornalistas, repórteres, dentistas, médicos, decoradores, físicos, publicitários, pecuaristas, arquitetos. Num segundo menu, outras funções ainda mais específicas: prefeito, eletrotécnico, cônsul, operador de câmera, reitor, entre outras. Mas não há doméstica. Nem dona de casa, que, por aproximação, poderia ser a mais adequada. Para o TAM Fidelidade, não existem domésticas no Brasil. A ironia é que existem, segundo o governo federal, 6,7 milhões de empregadas domésticas no País, o que equivale a quase 4% da população brasileira. Apenas para efeito de comparação, o Ministério do Trabalho estima que existam 89,2 mil jornalistas no Brasil (dados de 2010). No TAM Fidelidade, estão disponíveis duas categorias para os profissionais de redações e nenhuma para as domésticas. No Smiles, programa de fidelidade da Gol e Varig, não há a pergunta relativa a profissão e no da Azul, também não existe a opção “doméstica” entre as categorias profissionais. Ao assinalarem a alternativa “Outros”, a ausência revela o estigma para essas milhões de mulheres. O mundo acaba por se dividir entre “todos eles” e “os outros”, como tem sido há 500 anos.

É ainda mais sintomático que isso aconteça mesmo após a regulamentação que deu aos trabalhadores domésticos os mesmos direitos de todas as outras funções, em vigor desde abril. As empresas, para quem a renda dessas profissionais é tão importante na composição das suas estratégias de mercado, ainda não parecem ter reconhecido que elas não são apenas quadros de planilha. São pessoas. Com rosto, história, identidade e orgulho das suas atividades. Como a Socorro, que quer voar.

O problema da Socorro está parcialmente resolvido: no cadastro ela será “presidente” de uma companhia no setor de “patrimônio”.

Rodrigo Menzano para a Meio & Mensagem