a megera domada

Passei por um pedaço da minha biblioteca – tenho-a espalhada por vários locais – e olhei de canto de olho para uma capa que há muito tempo não percebia, mas que indiquei em nossa reunião semanal na agência: A Megera Domada de W. Shakespeare, com tradução de Millôr Fernandes.

Uma obra de arte de ambos os lados. Uma comédia fantástica de Shakespeare e um primor de tradução, pois foi feita por quem entende o que significa fazer humor e tem respeito pela atividade artística. Tem um texto do Millôr, no início do livro, em que ele escreve: “Não se pode traduzir sem intuição. Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade.” Isto determina a qualidade do seu trabalho.

Li duas outras versões burocráticas e a do Millôr é maravilhosa e está no estilo peça de teatro. No cinema, tivemos as atuações magníficas do eterno casal Richard Burton e Elizabeth Taylor, e a direção de Franco Zeffirelli. Não tem como não se apaixonar perdidamente pelo relacionamento entre Petruchio, o clássico vigarista atrás de dinheiro, e Katharina, na sua busca por independência, esclarecimento, respeito, autonomia e muitas outras coisas e total aversão ao que ele pode representar e uma das particularidades é o fato de que ela se apaixona por ele e isso a deixa enlouquecida.

Os mais modernosos têm versões atuais e a que mais se destaca (sim, tem um monte de porcaria espalhada por aí, algumas disfarçam a sua total falta de senso com uma bela produção, mas continuam porcarias) é a do filme 10 coisas que eu odeio em você, de 1999, com direção de Gil Junger, que é uma delícia de ser visto e analisado (mas não muito). Vale por algumas cenas como aquela em que Heath Ledger (aquele que seria Petruchio) canta Can’t Take My Eyes Off Of You para a mocinha Julia Stiles (Katharina), no campo de futebol. Muito legal.

Na ordem, para melhor construir a sua intelectualidade: livro com versão do Millôr, filme com Burton e Taylor e o filme 10 coisas. Pela foto, vocês podem ver que o livro é antigo – comprei-o em 1980 e foi lançado em 1979 pela L&PM. Não sei se ainda existe por aí, mas acredito que sim. Boas e deliciosas aventuras.