O picolé mais famoso – e delicioso – do Rio de Janeiro não tem firulas. Vem embalado num papel branco simples, com o nome do sabor escrito à mão, com caneta azul. Também não vende em supermercados, docerias, lanchonetes. Quem quiser experimentar terá que ir até o carrinho do Morais, que fica na rua mais movimentada do Leblon. “A receita não tem segredo. É só água, açúcar e fruta pura, da época”, ensina Adriano Morais, 78 anos. Tem de abacate, jaca, banana frita e manga, um dos mais pedidos. Seu Morais, como é conhecido, sabe o que diz e o que faz. Seu pai era um conhecido comerciante do Catete, região central do Rio, quando, em 1936, resolveu mudar seu estabelecimento para Ipanema. Passou a vender sorvetes de frutas e se tornou referência. A sorveteria fechou em 1980, mas seu Morais resolveu voltar a vender picolés anos depois, dessa vez num carrinho de supermercado improvisado. “Até que um dia o rapa da prefeitura quis levar tudo embora. As mães do Leblon ficaram em volta do meu carrinho e disseram que em mim ninguém tocava”, diverte-se. A reação é esperada, pois seu Morais é uma das figuras mais queridas do bairro. Difícil é conseguir sua atenção – todo mundo que passa quer um papo com ele, além de um picolé, lógico. Para provar um dos sabores, é bom não demorar. “Trago 85 picolés, que faço no dia”, diz. Seu Morais chega por volta das 14 horas e só fica até o último picolé. “Acabou, acabou.”