Calor. Por baixo, uns oitocentos graus. João levanta. Pensa em como é bom uma soneca no quintal. Sentir a brisa passando pelas árvores e juntando o corpo dele com a natureza. O cheiro inesquecível da liberdade, sabendo que depois nada está esperando.
Vai até a cozinha. Faz uma limonada. Escuta risadas ao longe.
Volta para o quintal, arruma a cadeira na sombra de uma árvore e pega um livro sobre a frustração dos seres humanos que caem nas suas próprias armadilhas.
O vento traz muitas lembranças. O ruído das folhas transforma em real qualquer ilusão. Ensurdece. Ao longe, um pássaro disfarçando-se com o céu.
– Oi, seu João.
Percebe que uma amiguinha da filha estava parada ao seu lado, também olhando para o céu.
– Ôh, Luisa, não enche o pai. Cai fora!
Era Vera, a filha, chamando a amiga, que se vira para o interior da casa e grita algo como “tô indo” e sai.

O ruído do colar caindo no chão desperta João. Ela está ao lado da cadeira. Abaixa-se, sem dobrar as pernas, lentamente. Ele espreme os olhos e, disfarçadamente, coloca o livro no colo.
Logo em seguida, Vera aparece:
– Paiê, qué um café com cuca?
– O quê? Sim, claro, sim.
– Mãe, ele disse que sim. Grita para dentro da casa e entra.
João escuta vindo da cozinha uma voz dizendo coisas do tipo deixa que eu levo dona Ana, quantas fatias de cuca eu levo, qual a xícara que ele gosta, quantas colheres de açúcar e passos de chinelos.
Faz de conta que está dormindo. Escuta o prato e a xícara sendo colocados na mesinha ao lado e percebe que os passos indicando a volta para dentro da casa demoram para começar. Silêncio perturbado apenas pelo vento e pelas folhas. De repente, Vera grita de dentro da casa:
– Ôh, Luisa, não fica enchendo o pai!
João fica ainda de olhos fechados pensando no que poderia ter acontecido. Nada mais fazia sentido, nem o vento, nem as folhas, nem a cuca.

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.