José acorda e tenta entender o que havia acontecido na noite anterior.
Pensa em quem poderia estar ao seu lado.
– Lindo, ela diz, ainda de olhos fechados.
Ele pensa que foi bem e esboça um sorriso.
– Eu te amo, ela sentencia, entreabrindo os olhos.
Ele abre um sorriso e pensa que é muito bom.
– Eu te amo muito, ela alucina, olhando para o teto e abrindo os braços.
Ele preocupado, pensa que algo está errado.
– Eu te amo muito mais do que os meus antigos namorados juntos, ela enlouquece, tapando o rosto com um travesseiro e soltando um gritinho.
Algo será um erro catastrófico, ele fecha os olhos bem apertados. Há um imenso vazio no cérebro dele, ecoando as palavras que foram jogadas no meio do quarto – amor, muito amor. Palavras que ficam badalando como sinos dentro da cabeça de José.
Recorda, então, quando ela chegou, na noite anterior, com um rosto angelical e disse:
– Oi, amor da minha vida.
Neste instante, José deveria ter sentido algo, mas foi enganando pelo próprio desejo.
Amor. Muito amor.
Acabou o que seria só um bom encontro, pensa José. Por que ela tinha que falar aquilo tudo?
Ela começa a falar sobre o casamento deles, mas não fala das contas, das dores de cabeça e das desculpas que ela usaria. Claro, tudo com muito amor.

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.