Passa das onze da noite e a cabeça de Jorge ainda está na cruzada de pernas que havia visto de manhã no escritório.
Catia estava com o conjuntinho azul claro do uniforme da empresa. A saia, que deveria ter a mesma altura da Muralha da China, estava na metade das coxas e mostrando as pernas cruzadas. Ela olhou para Jorge e sorriu. Jorge devolveu o sorriso com cara de bobo. Ela riu de Jorge, que abaixou os olhos.
Durante a tarde, Catia passou por Jorge, pertinho do café e deu uma piscadinha de olho. Olho azul claro. Jorge sentiu um arrepio na nuca. Ela voltou e passou a mão nos cabelos de Jorge, bem devagar, enquanto olhava fixo, no fundo dos olhos dele. Jorge engoliu seco e ela saiu sorrindo.
No final do dia, Catia entrou na sala de Jorge e pediu ajuda em um relatório que ela havia feito. Ele começou a ler e sentiu o perfume dela se aproximando como uma nuvem. A mão dela passou pela nuca dele e ela se aproximou dele. Nesse momento, entrou o chefe e ela perguntou.
– Tem alguma coisa errada com a minha perna, seu Jorge?
– Seu Jorge! Gritou o chefe.
– Mas, eu …
– Seu Jorge! O chefe repetiu o grito.
Foi demitido.
Jorge em casa, jogado no sofá, olha a reprise de um filme. Passa uma cena igual em que a atriz também está de conjuntinho azul claro. Ele pensa que Catia poderia …

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.