Jorge entra no ônibus. Quase vazio.
Verão de fritar ovos no asfalto e ele escolhe um com ar-condicionado para dar uma suavizada. Senta em uma janela e abre o jornal no caderno de cultura.
Entre dois parágrafos, quando a dissonância do pós-modernismo encontra a aglutinação industrial, ele escuta um chorinho. Olha para o lado e vê a mulher mais linda da vida dele. Chorando miúdo para não atrapalhar o ar ao seu redor. Ela está do outro lado do corredor, olhando molhado para a paisagem urbana. Jorge fica no vai não vai, vai não vai, vai não vai e vai.
– Com licença?
– Sim?
– Está tudo bem, precisa de alguma coisa?
– Não, está tudo bem, mas senta aqui um pouquinho, vamos conversar, ela fala secando as lágrimas.
Jorge olha para ela, linda de morrer. De perto era mais bonita ainda. O coração começa uma correria alucinada. Ele olha e vê que a sua parada está por chegar. Lembra de todas as mulheres que escutara – somente e apenas isso. Pensa no calor de perder o ponto e ter que voltar em um ônibus sem ar-condicionado (somente e apenas escutara). Pensa no calor daquele verão estúpido (somente e apenas escutara). Dá um sorriso.
– Tudo bem, então. Meu ponto está chegando. Cuide-se.
Diz e sai.
Ela fica olhando, de olhos redondos, Jorge sair quase correndo, resmungando algo como “se é só pra escutar…”