Sentam atrás de João.
Ruidosos ao arrumarem as cadeiras. Pedem café com leite e bolo de cenoura com cobertura de chocolate.
Então, ela fala como se estivesse continuando uma conversa já iniciada.
– Pois é. Muito estranho. A gente fala, sente, pensa, sonha e daí?! É muito bom. Mas como é que fica? Sabe, às vezes passam coisas estranhas na minha cabeça. Não importa se eu não fizer o que tanto quero.
De canto de olho, João consegue ver a cruzada de pernas dela.
A renda da meia aparece como um grito.
– Essas coisas são compensadas por outras mais lindas ainda. Coisas que vão ficar com a gente no resto do caminho. E isso é muito bom. Que pena que às vezes as nossas flores não são compreendidas. Mas acho que até é bom ficar por isso mesmo, pois pode pintar uma flor delicada e a gente deixar de colocar água, tão importante, não é meu bichinho?! Foi muito bom, pena que de repente morreu nisso mesmo.
Levanta, sai e, por alguns instantes, a renda grita.
Então, João escuta o choro dele. Um choro baixinho de quem perdeu algo grande.
Seria pelo sentimento de perda? Mas e se não fosse choro e, sim, um riso contido. Uma grande gargalhada de liberdade ecoando por dentro do corpo dele.
Definitivamente.

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.