Anicéia está em casa. Na janela.
Noite alta.
O cheiro de cebola frita gruda em todas as casas da rua.
Escuta a freada de um carro. Pensa na sua vida real. No trabalho, nenhum homem interessa. Na facul-dade, também ninguém. No seu bairro, só tem um bando de gente comum. Tudo é muito comum.
Ela pensa em como seria se estivesse naquele clube. Seios quase pulando para fora da camisa. Barriguinha de fora. Boca sensual. E, finalmente, aquele mundão de homens. Que delícia.
Ih…, pensa ela, lá vem José. Ele é bonitinho, mas muito certinho. Olha e pensa que é o tipo de homem pra casar, tirar filho, essas coisas. Não é homem pra meter feito um louco. E é o que Anicéia quer, nesse momento. Mas, está ali, na janela. Sozinha. Suspirando e vendo a vida passar.
Passa José. Pensa que Anicéia é legalzinha, mas moça pra casar e não pra agarrar e pregar fogo. Não. Não a Anicéia.
– Boa noite, Anicéia, fala ele passando rápido.
– Boa noite, Zé, diz ela quase ao mesmo tempo em que fecha a janela.
Fica no escuro do quarto, sozinha. Aliás, sozinha, não. É Anicéia e o cheiro de cebola grudado nas paredes.

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.