Todo filme que relate a luta humana em sobreviver tem a tendência a chocar. Seja na guerra, por amor, na superação de obstáculos ou qualquer outro motivo. O simples fato de uma pessoa fazer algo diferente do imaginado já nos deixa intrigados, curiosos, abismados, e outros tantos adjetivos. Claro, tudo não passa de mera ficção, ou seja, uma visão de como seria caso aquela história tivesse mesmo ocorrido. Quando nos damos conta disso, o mundo volta a ficar normal de novo.

Mas e quando o filme é baseado numa história real?

Usando do bom português, aí é que o bicho pega. Porque por mais que a gente tente, não consegue tirar da cabeça que uma pessoa de verdade e não um simples personagem passou por todo aquele sufoco. Não é apenas a criatividade de um bom roteirista, é a história real contada pelo sobrevivente. Se esse foi o intuito do diretor Danny Boyle, ele conseguiu.

Em 127 Horas temos o relato de sobrevivência de Aron Ralston (James Franco), um aventureiro que se vê preso numa situação desesperadora. Sem ter avisado ninguém de seu paradeiro, ele sai para praticar escaladas num canyon em Utah. Planejando uma viagem curta de apenas um dia, Ralston se vê em perigo quando uma pedra se solta da parede e acaba prendendo seu braço direito. Sem ter a quem recorrer, ele começa a planejar jeitos de sair dali.

Com pouca água e comida, Aron começa a racionar tudo e entre uma tentativa e outra de soltar seu braço ele faz vídeos com depoimentos para sua família. Nos vídeos ele pede desculpas a mãe por não retornar as suas ligações, pois quem sabe se ele tivesse ligado antes de sair, poderia se sentir mais aliviado em ter alguém a sua procura.

Por mais desesperadora que seja a situação, Ralston consegue raciocinar perfeitamente bem e até criar planos que talvez o consigam lhe tirar dali. Em meio a muitas tentativas fracassadas, Aron começa a ter alucinações devido a desidratação e a privação do sono. E é em seus devaneios que ele encontra forças para continuar vivo e tentar se manter o mais lúcido possível. Após três dias de sofrimento, sem água, sem comida e bebendo da própria urina, ele só vê uma solução: amputar seu braço. O único problema é que a faca da qual ele dispõe está completamente cega.

Instinto de sobrevivência é pouco para descrever a coragem que Aron Ralston teve para se ver livre daquela situação. Afinal quantos de nós podemos afirmar que realmente cortaríamos um braço fora em troca de liberdade?

James Franco, em uma atuação belíssima, consegue transparecer toda a agonia, dor, sofrimento e desespero que o alpinista encarou em 2003. Por mais que as cenas sejam limitadas ao corredor em que ele está preso, Boyle consegue nos levar um pouco mais adiante e ilustrar todas as alucinações, os desejos e sonhos que ele teve nos cinco dias em que esteve preso. Como era de se esperar, as paisagens são de tirar o fôlego e a fotografia é deslumbrante. Um filme minimalista que se perde em uma grandeza enorme de detalhes.

Boyle se mostra um diretor rico em paisagens. Assim como em A Praia e Quem Quer Ser Um Milionário, que lhe rendeu estatuetas importantes, ele consegue criar cenários divinos para narrar suas histórias, seja numa praia perdida na Tailândia ou nas movimentadas ruas de Bali, a mistura de cores, movimentos, pessoas são o toque final em sua obra – ou ele escolhe muito bem seus diretores de fotografia. Além da direção, ele também assina produção e roteiro, no qual está concorrendo ao Oscar, dentre outras cinco indicações, como Melhor Ator para James Franco e Melhor Edição.

A Academia é famosa por premiar filmes e atores que interpretem pessoas reais, tais como Phillip Seymor Hoffman em Capote, Sean Penn como Milk, Sandra Bullock em Um Sonho Possível, para citar alguns exemplos. Por isso Franco que também é o apresentador da cerimônia, tem boas chances de ganhar.

127 Horas (127 Hours no original) é um relato fiel de sobrevivência e se não levar nenhum Oscar, mereceu pelo menos as indicações. O verdadeiro Ralston é casado, tem um filho pequeno e continua fazendo suas escaladas, mas antes de sair ele passou a deixar bilhetes dizendo aonde vai.

Não deixem de conferir nos cinemas, dia 18 de Fevereiro.

Curiosidade: O filme bateu o recorde de O Exorcista, com pessoas passando mal na sala de exibição, antes mesmo do filme ir a circuito nacional. Em sua estréia no Festival de Toronto, muitas pessoas desmaiaram ou tiveram que ser retiradas da sala de cinema por não aguentarem assistir a cena em que ele amputa o próprio braço. Em contraponto, quem resistiu, aplaudiu ao filme de pé. Confira o trailer:

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