Ana acorda e puxa o seu lençol de tecido inteligente. Observa que tem algo ao seu lado. Puxa mais e vê a bunda de um homem. Bonita, ela pensa. Ele está com o rosto coberto.
Ana explora suas ansiedades. Como ele será? Bonito? Quem será? Alguém conhecido? E se for um ladrão? E se for um assassino? Será que gostei dele? Como será o hálito dele? Não consigo ver onde está a roupa dele. Será que tem bom gosto? O perfume é gostoso. Não, este perfume é meu. O cabelo poderia ser aparado. E, pensando bem, lavado – tem um cheirinho de cigarro. Onde eu fui ontem? Como será a voz dele? Será que ele vai dormir muito tempo? Quanto tempo devo esperar? O que será que ele está sonhando? Por que ele não acorda e fala comigo? Será que disfarço e acordo ele? Mas e se eu não gostar? Será que ele manchou o lençol? Acordo, ou não acordo? E se Shakespeare estivesse aqui?
O homem movimenta-se um pouco.
Ana, com os olhos arregalados, acha o homem lindo. Observa o nariz e a boca. Pensa que aquilo sim que é conjunto e não o time do Inter de 79. Aí, o homem mexe só uma das pernas. Ana não gosta do movimento.
– Nossa! Fala em voz alta.
O homem abre os olhos e ela pergunta:
– O que tá fazendo aqui?
– Eu moro aqui, ele responde.
Ela lembra, então, que ele é o marido, aliás, maridão, como costuma dizer para as amigas, sempre contando vantagem de como ele é atencioso, romântico, cheiroso e tudo mais. Mas, não gosta de como ele mexe a perna direita quando está deitado de costas. Ana reflete bem, vê que precisa do divórcio e grita no meio do quarto.
– Chega!
Júlio senta na cama, com os olhos esbugalhados, assustado com o grito e vê Ana fazer as malas e falar algo parecido com a casa da mãe dela, enquanto bate a porta.

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.