João pensa no seu dia.
O relógio tinha gritado por volta de cinco e meia. A mão foi rápida para desligar. Com os olhos abertos, lembrou que não precisava ter pressa, não tinha mais ninguém para ser acordado. Lavou os olhos. Esquentou o café no micro e comeu pão de ontem com margarina de sempre. Escovou os dentes olhando no espelho uma cara conhecida. Buscou algo no fundo dos olhos e descobriu, enfileiradas, todas as suas frustrações.
No ônibus, João viu a cidade acordando na expressão de cada um. Todos espremidos. Todos estranhos. Todos os olhos procurando qualquer rota de fuga.
No escritório, sentou e começou a digitar os números do dia anterior. Não podia parar. Precisava correr. Tinha que terminar antes do almoço. Almoço? Lembrou do que tinha comido – pão mole, ovo duro, maçã e água. A tarde foi longa. Ninguém conversava com João. Apenas deixavam mais trabalho na sua mesa. Só jogavam os papeis. Nenhuma palavra. Por alguns instantes, João lembrou, com saudades, dos gritos do chefe. Hoje, nem mais isso. Só papeis.
No final do dia, todos eram rápidos. Nos olhos, o alívio de sair do trabalho.
Em casa, sentado em seu sofá, João respira fundo. Onde estava a vida dos comerciais? A mulher? Os filhos? O cachorro? O jantar em família? Os sorrisos?
Respira fundo, novamente. Escuta o próprio suspiro como se fosse um grito. Engasga quando vê o comercial de um gato no colo de alguém. Logo depois, passa o comercial de um remédio com um forte apelo de gente bonita e de família. A noite de João estava terminando com cachaça e choro, como sempre.

Extraído do livro Desejos Urbanos, de Igor Luchese.