Chega o coelho, apressado, com um relógio enorme. Confere a hora, cheio de tensão e angústia, e descobre estar muito atrasado. A cena parece conhecida? Pois é ela mesma. A cena é de Alice no País das Maravilhas e, depois, ela persegue o coelho neurótico para ver para onde ele está indo. Indo tão apressado. Seríamos todos Alice, ou todos coelhos neuróticos? Prazos para a realização de algo, ou para estar em algum lugar, têm perseguido o ser humano desde o tempo em que ele ainda não pensava – aliás, pensava que estava com fome e precisava rápido encontrar comida. Depois, a civilização foi-se aprimorando e evoluindo nas suas mais alucinantes necessidades. Os prazos tornaram as pessoas escravas de coisas que elas nem faziam idéia, mas continuam nessa escalada alucinante de neurose e angústia. Continuam e vão colocando na cabeça das novas gerações essa loucura absoluta. O cotidiano mostra suas garras ao grito do relógio. Acordamos já com a sensação de que o tempo está contra as nossas vidas e que não será suficiente para realizarmos todas as atividades que precisamos. Prazos para tudo. Pouco tempo para vestir-se. Pouco tempo para deslocar-se de casa para o trabalho. Ficamos muito tempo no trânsito. Muito tempo no elevador. Muito tempo em reuniões que apenas marcam novas reuniões. Muito tempo desperdiçado para nada. Muito tempo. Resta pouco tempo para as pessoas. Pouco tempo para ver a vida passando. É a vida que nos vê correndo cheios de angústia pelo tempo que está passando. Corremos o tempo todo e quase não sabemos como nos comportar quando temos tempo para algo. Corremos demais. Alguns são barrados no meio da vida por correrem demais. Outros, correm a vida toda sem ter uma noção exata do porquê. Ficam transferindo, a todos ao seu redor, todas as suas ansiedades diárias para que os outros participem de suas vidas. Sentem-se mais importantes com os seus grandes relógios imaginários que determinam se a vida pode, ou não, continuar. Será que Alice teria se encrencado tanto se não fosse pela neurose do coelho? Somos Alice correndo atrás dos outros, ou somos coelhos neuróticos obsessivos?

Igor Luchese
Igor é publicitário, escritor, gosta de cozinhar para os amigos e se diverte cozinhando na televisão.

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