A televisão me atrai pelas suas particularidades e curiosidades. Olhamos um cozinheiro do outro lado do planeta e achamos maravilhoso que ele esteja fazendo comida na beira da praia usando temperos inusitados, misturando ervas, algumas muito esquisitas e outras apenas um pouco conhecidas. Eles misturam as coisas sem a preocupação com a higiene e com o ambiente. Ao seu lado o vento leva folhas e muita poeira para dentro da panela que está fervendo água, com certeza. O cozinheiro sorri e acha tudo muito gratificante e prova a comida (um caldo com algumas ervas e um peixinho magrinho boiando nela) fazendo uma cara esquisita e dizendo que é muito bom. Por que será que seria para nós? Mas, sem as dúvidas latentes, somos envolvidos pela imagem e achamos tudo maravilhoso. Claro, esquecemos dos outros sinais para estar muito bom e, certamente, o apresentador já está acostumado ao cheiro do ambiente (cheiro de cachorro molhado e de roupa suja e suada), ou acostumado com as agruras do ambiente (a poeira entrando nos olhos), ou, quem sabe, não se importe com o pouco fogo que o vento apaga a cada golpe de ar. Enfim, somos fisgados pela imagem que passa e esquecemos que o bom mesmo da boa comida é justamente comer. Isso mesmo, somente isso – comer.

Certa vez um grande chef falou que devemos dar mais atenção aos nossos produtos próximos e produzir gastronomia com os produtos locais e frescos. Não importa que ele tenha usado elementos esquisitos e totalmente distantes entre si, na sua receita, o que importa, afinal, é que ele disse uma verdade estrondosa – devemos prestar mais atenção aos produtos locais, aos produtos próximos de nós, pois os alimentos devem ser feitos com elementos frescos. Não que isso seja radical e leve a um distanciamento de um bom salmão, ou de belos camarões. O que, realmente, devemos fazer é buscar mais a simplicidade e fugir dos produtores de plástico (aqueles que buscam apenas a forma, ou a fuga da forma natural de algo). A simplicidade faz com que todos possam perceber melhor o sabor dos elementos que estão misturando. Um toque de manjericão, azeite de oliva, azeitonas e pedaços de tomate fresco que podem cobrir uma boa massa fresca é um prato maravilhoso e muito mais gratificante do que qualquer mistura de milhares de ervas e muito gengibre, coentro e chili, como certo especialista, na televisão, que só usa isso. Aliás, foi esse mesmo “especialista” que me iniciou no caminho da dúvida: como pode uma pessoa com a fama internacional e um grande conhecimento, misturar sempre os mesmos temperos?

A televisão ligada e eu curioso com o que ele iria misturar os temperos de sempre. Isso mesmo, foram tantas as vezes que ele usou os mesmos temperos, que sempre imagino onde eles os usará na próxima vez – qual será a sua próxima receita-vítima. Assisti, aliás, um programa onde ele recebeu um convidado brasileiro, que fez uma feijoada. Ele já estava cortando os seus três amigos (o gengibre, o coentro e o chili ) e ia misturar quando o brasileiro disse para ele não fazer isso. Ele deu um sorriso nasalado, como um ganso, chiou, mas não colocou. Mas queria ter colocado, com certeza.

Tem uma outra que, diz ela, nada sabe fazer direito (no que eu acredito), mas que ao dar o tempo e o calor ela fala nas duas principais variações mundiais – deixando claro que o mundo desenvolvido segue suas receitas, sendo Celsius ou não.

Isso, e muito mais, é o que a televisão mostra, seja em que lugar do planeta estiver acontecendo. Mas, não mostra outras muito mais importantes e as pessoas se esquecem de usar os outros sentidos, que são fundamentais para entender a complexidade da experiência. O cheiro é fundamental, mas somos embriagados pela imagem (mesmo sabendo que os cheiros serão horrorosos).

Um conselho, para o momento dos programas de televisão onde a comida parece ficar muito boa (mesmo com um milhão de temperos sendo usados, numa mistura dos infernos): veja se realmente as pessoas sabem o que estão fazendo e o que está ao redor delas. Muitas vezes, as coisas surgem do nada e existe alguém apenas sorrindo e achando bom – cozinha é muito mais do que apenas imagem.

Igor Luchese
Igor é publicitário, escritor, gosta de cozinhar para os amigos e se diverte cozinhando na televisão.

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