A relação engraçadinha, que vivemos no dia-a-dia, é a de que compramos e somos comprados o tempo inteiro. O poder que envolve esta relação é algo assustador e mostra a infinita capacidade de mudança do ser humano. Parece uma corrida, onde às vezes estamos com o bastão na mão e coordenamos o negócio e, outras vezes, passamos o bastão para outro e somos coordenados – uma verdadeira corrida de revezamento. Passamos o dia entre sorrisos e gritos – querendo vender alguma coisa para alguém (qualquer um) e escolhendo de quem comprar (apenas de alguns). Pense bem. Quando tentamos vender alguma coisa para alguém, mudamos o tom da voz, o sorriso é automático, agradamos com gestos e palavras caridosas. Escondemos de nós mesmos a realidade de que nem todos podem ser “meu lindo”, “meu amor”, “amigão do peito”, “ícone” e outros superlativos açucarados que utilizamos. Somos serviçais ao extremo – um nível que a sociedade criou para definir excelência no trabalho. Porém, apenas fazemos número no processo histórico. Nosso conhecimento, apesar da febre instalada no mundo, nada significa perante o “saber infinito” dos que estão pagando. Eles é que definem quantas voltas o sol dá ao redor da Terra e quantos lados tem o nosso planeta. A vingança ocorre quando nos transformamos nas mesmas bestas que odiamos. Nada interessa aos nossos ouvidos, a não ser nossas próprias palavras. A máscara da prepotência se agarra aos nossos cabelos e nos vemos discutindo com alguém porque ele não atendeu o telefone sendo simpático. Lógico, esquecemos de “olhar para o nosso próprio rabo”, pois atendemos o telefone como ele, todos os dias. A vingança de ser cliente e estar pagando por algo, em uma sociedade capitalista, é uma experiência fantástica. O poder econômico nos transforma, assim como a morte, em santos. Pena de nós por vivermos assim, tão limitados e obtusos, obscurecidos pela mesmice de ganhar mais dinheiro e menos vida. Pena de nós por vivermos num mundo cheio de vinganças diárias.

Igor Luchese
Igor é publicitário, escritor, gosta de cozinhar para os amigos e se diverte cozinhando na televisão.

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