A revista Piauí traz uma matéria interessantíssima sobre as cartas de despedida dos embaixadores ingleses no Brasil. Reproduzimos abaixo dois trechos da despedida de dois embaixadores de Sua Majestade no Brasil. O primeiro é de sir G. A. Wallinger, embaixador no Rio de Janeiro de 1958 a 1963 e o segundo de sir John Writhesley Russell, que serviu aqui entre 1966 a 1969.

Os trechos, com uma ou outra substituição, ainda poderiam retratar a política brasileira atual. Uma pena.

“Um aspecto a salientar é que todo governo no Brasil ainda é intensamente “personalista”. Os três presidentes a que me refiro são chamados, simplesmente, de Juscelino, Jânio e Jango. O tamanho do poder em mãos de um presidente brasileiro é relativamente maior do que o poder do presidente dos Estados Unidos, visto que, desde os tempos de Getúlio Vargas, o Congresso nunca conseguiu de contrapor a ele… Embora o presidente dependa do Congresso para a aprovação de leis, a influência do Poder Legislativo na condução da política está viciada pela natureza primitiva da organização dos partidos políticos. Os partidos, apesar das implicações ideológicas de suas denominações, são essencialmente clubes políticos, criados para prover máquinas eleitorais a seus membros; estes, por sua vez, são homens que optaram pela atraente, lucrativa e “suja” carreira política; são frequentemente desprovidos de qualquer compromisso social ou ideológico, ou do sentido de servir à nação. Como consequência, a lealdade partidária é subordinada ao interesse político.”

“O estado da Guanabara tem mais funcionários públicos do que Nova York; a Petrobrás, só em São Paulo, emprega um número maior de químicos do que a Shell no mundo inteiro; pode-se comprar qualquer coisa – desde uma carteira de habilitação a um juiz do Supremo Tribunal Federal; o reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro ganha 500 cruzeiros mensais, enquanto os aluguéis são três vezes mais altos do que em Londres e os hotéis da cidade estão entre os mais caros do mundo (e entre os de pior atendimento); o país tem apenas 18 mil milhas de estradas asfaltadas e em 1968 os brasileiros mataram 10 mil pessoas nas estradas – mais o que o total de soldados americanos mortos no Vietnã no mesmo ano. Como já escreveu Peter Fleming, “o Brasil é um subcontinente com um autocontrole imperfeito.”

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