É curioso ver um aglomerado enorme de pessoas e saber que é a composição de um aglomerado enorme de solitários. Gente que, apesar de estar com muitas outras, está sozinha. Gente que, em um instante qualquer, pode ficar na solidão absoluta. Nada escutar ao redor. Em um lugar qualquer, alguém parado em um canto qualquer de uma festa qualquer, apenas observa as pessoas – alguns instantes de real reflexão separam o teatro do cotidiano, onde existe o medo do relacionamento e a desconfiança das pessoas. Coisas superficiais fazem a composição da base para muitos relacionamentos. Conversas mínimas, preocupações pequenas e localizadas no ínfimo universo individual. O cotidiano do trabalho e da escola, a colega, o chefe, o esporro, o desejo, o nojo, a risada forçada. Difícil de ver os reais sentimentos. Difícil de sentir o sentido das coisas.
A solidão se mostra ao se sentar sozinho na cozinha. Aquele zumbido característico do silêncio invade os ouvidos. De repente, algo começa a incomodar. Como se fosse a busca de uma desculpa para não pensar no porquê das coisas. Quando se pensa na vida, ela parece sufocada. A fidelidade da vida amedronta. A descoberta parece perigosa. Afinal, fazer o quê? Com quantas pessoas realmente se é real? Com quantas se consegue ser real? Com quantas se pode ser real?
Esse amontoado de regras de comportamento vai fazendo buracos imensos na vida das pessoas. Verdadeiros abismos sem fundo, onde estão escondidos os sentimentos e as preocupações da existência. A grande maioria fica só olhando para baixo e prefere agarrar-se nas bordas para não cair. A existência tem se mostrado um andar por andar e fazer por fazer. O que realmente significa este amontoado de regrinhas de sobrevivência? Até onde a espécie vai conseguir chegar fazendo o que está fazendo consigo mesma? Será que se quer chegar a algum lugar? O destino da espécie é isso? Andar por andar? Esconder-se do real e fugir da descoberta da solidão? Criar subterfúgios alucinógenos para disfarçar o real? Aglomerados solitários – destino cruel para a espécie que se acredita inteligente.

Igor Luchese
Igor é publicitário, escritor, gosta de cozinhar para os amigos e se diverte cozinhando na televisão.

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