Ao sair para comer nos deparamos com variáveis incríveis. A presença de crianças define o rumo que devemos tomar. Com crianças junto não existe a condição de alguma aventura gastronômica, porque crianças não entenderiam uma carne queimada como eu comi um dia destes (e paguei bem caro, aliás). Mesmo com crianças junto, difícil de ser visto algum espaço gastronômico com um ambiente separado para a bagunça. Como os pais, tios, avós e etecétera e tal querem apenas divertir-se e conversar um pouco resta os corredores e a paciência dos outros. Ou, o pior de tudo: um emburrado na mesa. Entretanto, nem todos levam crianças junto. Tem gente que sai para ser visto, muito mais do que para comer e, aliás, tanto faz o que vier, desde que seja no lugar da moda e com muita gente pra ver que estamos lá. Claro, apertados e sem a menor qualidade na comida e no atendimento. Mais uma vez, tanto faz porque estaremos sendo vistos.

Mas, graças aos céus, tem gente que sai para comer pensando em comida. Sim, para muitas pessoas pode ser uma opção antiga, mas juro que é verdade – tem gente que quando sai para comer pensa em comida. Um problema grave envolve essas pessoas: a experiência. Normalmente, as pessoas comem o que gostam e não buscam a experiência de algo diferente. Pior, o prato tem que ter carne. Muita gente nem pensa em outra coisa que não seja o nosso hábito de proteína pura ao sair para comer. Daí, o normal de encontrarmos muitos filés, bifes e coisas do gênero nas mesas de nossos restaurantes pela vida afora. Comer sem a dita proteína é quase sair sem ter saído.

Gente, vamos pensar em algo um pouco diferente! Já pensaram em quanto tempo levou para pensar e aprimorar aquele sanduíche com rúcula e presunto? E a omelete? E o creme de milho? Claro, isso sem pensar nos doces como o sagu fantástico que é feito com um excelente vinho? E o creme que acompanha que é receita da família? Pensaram nisso, ou só se pode comer coisas como um filé feito na grelha e, por isso, fica queimado por fora e cru por dentro, mas custa uma fortuna e as pessoas acham que está certo? Só vale aquele restaurante que faz uma redução de vinho do Porto (mal feita mas …) para colocar uns pingos ao redor de duas folhas de endívia?

Ao sair devemos buscar uma aventura de cada vez, porque somente através dela é que vamos conseguir garimpar com sucesso as cozinhas dos restaurantes, que estejam em qualquer lugar. Aliás, não só dos restaurantes. Quem disse que um ambulante não pode fazer boa comida? A comida de qualidade pode ser encontrada em qualquer lugar, basta que as pessoas que trabalham nela o façam com prazer de cozinhar.

Gosto de experimentar nas minhas aventuras em restaurantes. Claro, quem não gosta de um bom galeto? E do nosso bauru? Mas existe muito mais além. Experimente tentar comer um espaguete com molho de tomates, algo bem simples. Difícil de encontrar e quando encontramos o molho é sofrível e a massa vem empapada, não existe carinho. Acho que é porque as pessoas pensam que pratos simples não merecem muita atenção. Raros são os lugares que disponibilizam comida simples e gostosa. Esses raros lugares estão sempre cheios de gente que sai para comer. Tem bifes na chapa imperdíveis. Tem uma salada de radicci que é incomentável. Tem um risoto de miúdos que é algo indescritível. Tem sanduíches apaixonantes. Tem muita coisa nos cercando para que se perca tempo com lugares que são para as pessoas serem vistas.

Devemos correr de cozinhas sem personalidade. Entretanto, para que se consiga identificar as coisas ricas em prazer, precisamos buscar e essa busca é sair para comer e esse comer é experimentar. Experimentem qualquer coisa no seu restaurante de preferência, pode ser que o tortei deles tenha um recheio que é feito com um pouco de mel e isso seja a diferença. Ou, que a abobrinha feita na chapa seca e regada com azeite de oliva extra virgem ao ser servida mostre que algo tão simples consiga ser algo a mais na sua vida gastronômica. Pense no que a comida simples pode fazer por você e esqueça os plásticos que estão por aí. Ao comer sempre o mesmo filé com queijo com batata frita você está perdendo um universo de sabores. Pense nisso. Boas aventuras a todos e lembrem-se que só podemos descobrir os prazeres da culinária se os provarmos.

Igor Luchese
Igor é publicitário, escritor, gosta de cozinhar para os amigos e se diverte cozinhando na televisão.

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