O ser humano foi iniciado no gosto pelo poder de “ter” ao descobrir, nos primórdios de sua existência, que queria algo que outros tinham, mas ele não. A lei do mais forte determinava se ele conquistava a sua posse, ou morria. A natureza era abundante e a riqueza da Terra era infindável. A ignorância do ser humano determinava que tudo era sem fim – a comida, o mundo, o céu, a água e os perigos.

Pequeno e frágil, o homem era o único animal com o peito aberto e exposto aos perigos do mundo. Todos os outros animais tinham a sua estrutura física em defesa dos seus órgãos mais vitais – curvados ou com carcaças duras. O medo do encontro com algo maior determinava a sua ação – o homem passava o tempo todo fugindo pelas sombras, ou em lugares de difícil acesso.
A história de exploração do “homem próximo pelo homem próximo” e do “homem próximo pela natureza próxima” foi sendo desenvolvida; porém, em determinado momento, foi observado por alguém que não havia mais a quem explorar e que outras terras seriam exploráveis – a troca de mercadorias iniciou e homem conseguiu ir além: o homem próximo estava explorando o homem distante e a natureza distante.

Com isto, nada mais estava seguro das mãos do homem. A natureza, por mais assustadores terremotos e vulcões que criasse, sofria pela exploração de quem achava que ela não tinha fim.

As condições de vida e domínio da morte levaram o homem à ampliação do número de habitantes e o trabalho continuava sendo desenvolvido com absoluta exploração. A vida nada significava. A força de trabalho estava ligada diretamente à capacidade de lucratividade que o homem podia desenvolver. O trabalho não tinha moral, crianças, mulheres grávidas, homens velhos, qualquer um podia trabalhar e em regime de 14 a 16 horas por dia, com salários que compravam apenas um pedaço de pão.
Tudo era válido para obter mais lucro. Mas, como ter mais lucro? Fazendo com que mais pessoas trabalhem por um salário irrisório. Terras, produção e força de produção (o corpo humano), pertenciam ao mais poderoso – continuava valendo a lei do mais forte.
As ações do homem desenvolviam-se com o apoio de esquemas sociais sofríveis que eternizavam as diferenças e criavam deuses. Escondiam-se atrás da ignorância generalizada de que os seres humanos eram divididos em classes de capacidade; ou seja, apenas algumas pessoas, por direito divino, poderiam assumir determinadas posições sociais. O homem continuava explorando o homem e a natureza, sem limites.

Os gastos foram ficando maiores e o interesse por uma lucratividade maior cresceu – receber por tudo com o trabalho escravo de muitos já não era suficiente. Aí, descobriram como produzir mais, com menos trabalho humano – a era industrial começava a todo o vapor.

As pessoas, pensaram todos os trabalhadores, agora poderiam descansar um pouco, pois a máquina poderia substituir o trabalho escravo e tornar mais humana a relação de trabalho. Pois é, mas o desenvolvimento da humanidade não contava com a sede de lucro do homem sobre o homem, do homem sobre a natureza – as coisas não mudavam, a lei da mais forte continuava valendo.
Com a interrupção do direito divino sobre o destino do homem, várias tendências políticas de modelo social foram surgindo. Todas elas baseadas na influência econômica sobre a sociedade.

O modelo de lei do mais forte estava mudando mais uma vez. No início era o fisicamente mais forte, depois o “espertamente divino” mais forte e, então, surgiu o economicamente mais forte.

A necessidade de proximidade deixou de existir; então, o homem continuou a explorar o mais distante e a explorar a natureza distante. As florestas eram arrasadas porque era preciso encontrar ouro para os “divinos seres especiais donos do poder”. As pessoas eram expostas a elementos químicos nocivos, porque o lucro do trabalho deveria ser maior. Os salários continuavam a não valer. A colonização deixou de ser expansão de império por guerra, para dependência econômica.

A exploração continuava. O homem que não respeitava o homem, porque imaginava que sempre haveria a quem explorar. O homem que não respeitava a natureza, porque, na sua vil imaginação, imaginava que sempre haveria árvores para cortar.
O início da produção industrial marcou a continuidade das relações; ou seja, terras, produção e força de produção (máquinas), pertencendo ao mais poderoso. O homem deixou de ter valor, pois a força de produção era a máquina.

A exploração total do indivíduo estava cada vez mais intensa – mais gente no mundo, menos trabalho para todos, salários menores, promessas de consumo cada vez maiores, frustração, ódio social, entre muitos outros novos fatores. Não mais apenas a fome, que é algo físico que pode ser eliminado com um pedaço de pão e um pouco de diversão, como se fazia na antiga Roma (ao povo, pão e circo). Agora, as relações eram mais complexas. A capacidade de produção estava além dos limites humanos. A capacidade de destruição estava superior ao machado e o corte de uma árvore. O homem orgulhava-se de produzir máquinas de destruição – novos caminhões que poderiam carregar montanhas, novas máquinas cortadoras de florestas inteiras, novos químicos destruidores que alteravam todo o sistema natural, novas bombas que destruíam apenas a vida deixando a estrutura física das construções intactas. O homem estava superando-se em destruição. Na sua imaginação, as espécies que haviam sido extintas não faziam falta. A natureza estava no seu caminho, eliminando o mais fraco, pensa o homem, esquecendo-se que pode ser a próxima espécie a entrar em declínio.

A população do planeta está ficando cada vez maior e isto faz com que a responsabilidade de todos também seja cada vez maior. A maioria das pessoas, atualmente, independente de sistema político, vive apenas para si. Sua vida, suas preocupações, seu mundinho. O medo e a necessidade de sobrevivência a qualquer custo, transformaram a maioria da população mundial em zumbis. A busca pelo poder, esta natureza assassina do ser humano, transformou a outra parte em predadores, opressores ou carniceiros, como hienas comendo os restos do que os predadores abatem.

Espaços, meio de produção (qualquer coisa) e força de produção (qualquer coisa), continuavam pertencendo ao mais poderoso – independendo de onde o poder seja oriundo. Tudo vale na busca de ser mais forte no seu universo. O sistemas que o homem criou para rotular o seu modelo de vida apenas servem como desculpa para esconder a sua sede pelo poder, o seu desejo de matar, a sua vontade de destruir.

A WWF, uma organização mundial em defesa da vida no planeta tem um comercial de televisão muito esclarecedor para aqueles que pensam que a vida não tem fim e que tudo pode ser explorado para sempre.

Inicia com imagens lindas de um lago e com uma vegetação abundante. O texto vai discorrendo sobre a riqueza desta natureza. Mostra a água cristalina. Mostra gente vivendo. O texto começa, então a falar sobre a quantidade de pessoas que estariam vivendo nesta ilha, sem que elas pudessem buscar recursos em outros lugares – o alimento e a água terminariam em determinado momento. Então, as imagens lindas da ilha vão afastando-se, percebemos a ilha no meio do oceano e a câmera vai afastando-se e percebemos o planeta no meio do espaço. O texto finaliza dizendo que estamos todos em uma ilha chamada planeta Terra e não temos de onde tirar mais alimentos, nem mais água. Que devemos ter consciência na utilização da natureza.

O planeta é um ser vivo. Vivemos em universos de dimensões diferentes. Devemos estabelecer uma relação coerente com este ser vivo que nos carrega, pois ele pode morrer e nós todos morremos juntos. Ou, talvez a “experiência ser humano” se mostre inviável aos seres maiores do universo e nós somos simplesmente eliminados, como raça. Precisamos ter mais amor por tudo, pela natureza que nos acolhe, pelos seres que habitam a natureza. A nova ordem, que vai nos manter a salvo, é o poder do amor.

Existe um perigo que só vai acabar quando o homem for exterminado, pois ainda existem pessoas que envenenam árvores para que placas publicitárias tenham maior destaque.

Igor Luchese

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